Atire a primeira preda. ♫ Eu, com essa dor de rim... ♪

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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Corda Bamba

Man on Wire é um documentário belíssimo. Mais do que o relato de um feito extraordinário - andar num cabo içado clandestinamente entre as torres do World Trade Center - trata sobre a vida e como vivê-la com poesia. Assisti-o comovido na manhã de 14 de janeiro. O filme entrou em minha vida preparando-me para um dia muito triste. Minutos depois soube que uma grande amiga havia caído da corda bamba.

Recebi um email de minha mulher, que trabalha na Paulista: "uma ciclista foi atropelada aqui e morreu". Na hora lembrei-me dos amigos da Bicicletada. Mentira, pensei numa amiga apenas: Márcia. Márcia Regina de Andrade Prado. Pensei em como seria difícil perdê-la. E foi difícil. Minutos depois outro colega ciclista urbano foi ao local e reconheceu o corpo.

Conheci-a num passeio em que visitamos pontos de São Paulo citados no poema "Quando eu morrer", de Mário de Andrade: 

Quando eu morrer quero ficar, 
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade, 
Saudade. 

Meus pés enterrem na rua Aurora, 
No Paissandu deixem meu sexo, 
Na Lopes Chaves a cabeça 
Esqueçam. 

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano: 
Um coração vivo e um defunto 
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido 
Direito, o esquerdo nos Telégrafos, 
Quero saber da vida alheia, 
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade. 
Saudade...

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.

Vi Márcia pela primeira vez no cemitério da Consolação, primeira parada do passeio e onde o poeta foi enterrado. Reparei no rosto quadrado e belo, a expressão serena e firme, o sorriso generoso. Uma dezena de quilômetros depois começamos a conversar. Na viagem seguinte, até Sorocaba, formamos par por quase toda a ida e dividimos o mesmo banco no ônibus na volta. Uma pessoa extraordinária, divertida, generosa. Uma ativista atuante e inteligente. Acreditava na poesia que é viver usando uma bicicleta como meio de transporte.

Derrubou-a da corda bamba um ônibus com uma manobra mal feita. Uma imperícia típica dos maus motoristas que não sabem que o código brasileiro de trânsito obriga o motorista a passar a bicicleta a 1,5 metro de distância e a uma velocidade compatível. Que não sabem que os veículos maiores devem cuidar dos menores e todos cuidam do pedestre. Mais: a preferência é sempre dos mais fracos: carroças, bicicletas e principalmente pedestres. Não por egoísmo destes, mas para preservar-lhes a vida e a integridade física. Um carro você conserta em horas, uma perna em meses. Uma vida... vai-se.

Márcia foi julgada, condenada e executada pelo motorista do ônibus. Pior, com a aprovação de muita gente "de bem". Para estes, lugar de bicicleta é na calçada. Felizmente esta idéia ultrapassada e egoísta está mudando. Tristemente fatos como este trazem o assunto à discussão. Agora que Nova Iorque está adotando medidas benéficas aos ciclistas é bem provável que a colônia abra os olhos a esta idéia.

Márcia lutava e continua lutando por uma vida melhor para nossos bisnetos. Cada vez mais a bicicleta será usada, até o ponto em que o motorista saberá que o ciclista à frente pode ser um conhecido, e não um dos pobres que não podem ter carro e ficam atrapalhando o trânsito, como o preconceito atual dita.

Até na morte foi ativista: doou seu corpo para pesquisa. Apenas corpos de indigentes tinham este destino. A burocracia não sabia como tratar com este fato, mas sua vontade foi respeitada. Não houve sepultamento. Hoje há onde ela caiu uma ghost bike sinalizando o respeito que nós, ciclistas urbanos, devotamos a ela.

Márcia morreu na Paulista avenida símbolo da cidade. Saudade. O corpo foi doado, o espírito será de Deus. 

Adeus


Importante: Os participantes da bicicletada não querem ciclovias, ao contrário do que a imprensa erroneamente e preguiçosamente insiste em divulgar e do que é senso comum. Queremos harmonia entre os componentes do trânsito. Aos realmente interessados recomendo a leitura do Manifesto dos Invisíveis, deste e mais este post de Mario Amaya, e uma visita ao já citado site da Bicicletada.

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