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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Pedras

O assunto mais procurado no meu blog antigo é cálculo renal. Mais especificamente um detalhe do pós operatório: o catéter "duplo J". Já passei por esse procedimento 3 vezes, então acho que posso dar uns toques a quem está passando ou irá passar por isso. Uma leitora comentou aí embaixo que eu a assustei, mas gostaria de tranquilizá-la: quando bem feita, a retirada do catéter é indolor. Vamos à minha experiência:

Infelizmente sou um bom produtor de pedras nos rins. Com uns 20 anos tive o primeiro episódio. Um cristalzinho de nada levou duas semanas pra sair, produzindo dores que me impediam de dormir e trabalhar. Na época os médicos receitavam um medicamento que deixava a urina grossa e colorida, e eu tinha que torcer pra pedra sair do jeito que fosse. Depois das tais duas semanas nasceu um cristalzinho lindinho. Os médicos já não receitam os remédios que alteram a urina, apenas recomendam o aumento no consumo de água. E a mesma torcida pra que a pedra saia antes que você exploda.

Só tive que passar por isso de novo 10 anos depois, com mais um cristalzinho que me tirou de circulação por uma semana. Depois disso praticamente todo ano tinha uma crise com maior ou menor intensidade, mas sempre expeli o cálculo sem problemas. Já me achava profissional na arte de botar pedra pela urina.

Aí veio uma crise mais forte. Como estava calejado, achei que o cálculo seria expelido naturalmente mais uma vez. A dor já estava normal pra mim. Era ter dor, ir pro hospital, Buscopan na veia, alívio e algumas horas depois o cristal, sempre minúsculo, era expelido. Nessa crise houve o alívio, mas nada foi expelido. A dor depois de uns dias era menor, mas insistente. E diferente. Era uma dor aguda nas costas, do lado esquerdo. Um ultrassom constatou que a pedra era bem maior e ficou alojada no ureter esquerdo, exigindo um procedimento chamado urolitotripsia para ser removido. Nesse procedimento o médico usa os orifícios naturais do corpo (não sou mais virgem da uretra) para chegar até o cálculo e tentar destruí-lo. O povo chama de "laser", mas não é assim que a pedra é fragmentada. No final do procedimento é colocado o catéter duplo J.

O catéter é um canudo rígido de material plástico colocado no ureter, que é um canal que liga o rim à bexiga. Segundo meus urologistas o catéter é usado para que o ureter sofra o processo de cicatrização após a retirada de cálculos que ficaram presos ali. A urina produzida pelo rim é levada à bexiga através do catéter. Sem o catéter o ureter eventualmente ficaria obstruído pois as paredes do canal poderiam cicatrizar coladas uma à outra. Isso provocaria a hidronefrose, ou seja, o rim produz urina mas essa não passa à bexiga por causa da obstrução do canal, provocando inchaço no órgão, insuficiência renal, aumento de substâncias tóxicas no sangue e a perda do rim em casos mais graves. Aliás, esse é o mesmo quadro de quem fica com uma pedra entalada, como eu fiquei. Outra utilidade do catéter no meu caso foi alargar o ureter para que pedras parecidas com a que causou o problema passem por lá numa nova ocorrência sem provocar uma nova obstrução.

Minha primeira experiência com o catéter foi muito ruim. As outras duas foram só ruins. Nessa primeira vez o procedimento foi realizado em Santo André, no Hospital Beneficência Portuguesa. A impressão de que a intervenção foi feita apenas pra conseguir uma grana às minhas custas foi enorme. Não houve problemas na cirurgia, mas o período do pós operatório foi claramente esticado para que houvesse pelo menos uma diária a mais. Quando voltei para consultar o urologista do hospital que realizou a cirurgia tive uma surpresa bem desagradável que reforçou a impressão de que a cirurgia foi um caça-níqueis. O urologista disse que o plano não cobria as consultas com ele, mas ele "faria o favor" de retirar o catéter depois de duas semanas. 

Duas semanas depois retornei ao consultório e ele pediu a uma enfermeira que retirasse o catéter. O procedimento foi realizado sem anestesia. Ele havia deixado um fio que saia pela uretra, fio esse que estava amarrado na outra ponta ao catéter. A extração do catéter é simples: a enfermeira pediu o impossivel - que eu relaxasse - enquanto ela puxava lentamente a tal cordinha.  É extremamente dolorosa a retirada do catéter desta forma, pois não dá pra relaxar com uma pessoa arrancando um canudo de suas entranhas, e os esfíncteres da uretra travam mesmo. Doeu o cacete pra cacete. Perdoem a linguagem culta. O catéter tem algo em torno de 40 centímetros e 15 minutos de dor pra ser retirado dessa forma.

Depois de uns dois dias de desconforto tudo voltou ao normal, menos por um detalhe: a dor continuava idêntica. Aguardem o próximo capítulo para saber o que houve. Hoje eu já falei demais e sei que pouca gente gosta de texto grande.

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